O que fica por dizer
Terminei a leitura de Talvez você deva conversar com alguém (Lori Gottlieb) com essa sensação de quem fecha um livro, mas continua dentro dele. Algumas histórias não acabam na última página — elas puxam gavetas que a gente jurava organizadas.
Uma das frases que me pegou foi esta: “Nas melhores despedidas, sempre fica a sensação de que existe algo mais a ser dito”.
Há coisas que ficam por dizer — não porque faltaram palavras, mas porque algumas delas só aprendemos a nomear quando já é tarde: por falta de repertório psíquico, por medo, ou simplesmente por não sabermos ainda quem éramos.
Mesmo quando nunca mais vemos determinadas pessoas, elas continuam morando em nós. Cada uma deixa um gesto, uma frase, um cheiro, uma cena aparentemente pequena que, de repente, passa a valer uma vida inteira.
Penso no meu pai nesse exato momento. Faltou dizer a ele que não me esqueci do vestido vermelho que ele comprou para mim numa feira de domingo — eu o adorava. Também não me esqueci da tarde em que a bucha de um dos balões japoneses que costumávamos soltar no quintal, por pura diversão, caiu bem em cima daquele tecido frágil, pendurado no varal. Ali, ele desapareceu, delicada e rapidamente, na chama. E foi para sempre. Aquela pequena conquista se perdeu. E alguma coisa em mim também. Parece bobagem, mas acho que foi naquele dia que entendi, ao mesmo tempo, que ele me amava — afinal, tinha me dado a peça com miçangas amarelas mais bonita do mundo — e que as perdas, às vezes, começam assim: no meio de um dia comum.
Penso no meu irmão, entrando naquele avião, indo morar a milhares de quilômetros de distância. Não disse, no dia em que ele partiu, o quanto sentiria falta do seu abraço de urso, que sustenta o amor por alguns segundos a mais do que seria preciso para não doer — e isso, no fim, é quase tudo...
Outra frase do livro que não me deixa é esta: “Os relacionamentos na vida não terminam de fato, mesmo que você nunca mais veja a pessoa. Cada um de quem você foi próximo continua vivo em algum lugar dentro de você [...] todos evocam lembranças, conscientes ou não”.
Penso na Cris, colega de trabalho. Ela é dessas pessoas que atravessam a nossa vida despretensiosamente, com doçura, força e discrição. Partimos uma da outra sem que eu tivesse conseguido dizer a ela que carrego, na minha alma, a dor das perdas absurdas que ela viveu. Às vezes a gente sai de cena achando que ainda haverá tempo para um adeus digno. Mas não houve.
Depois de fechar o livro, as comportas do "até breve" cederam. Passei a reconhecer despedidas onde antes eu via apenas cenas comuns: encontros, partidas, silêncios, mudanças de assunto. Não como conceito, mas como experiência.
Foi viajando nesse pensamento que me dei conta: há despedidas que não acontecem em lugares solenes, nem em cenas memoráveis. Elas passam por cafés, por bancos de carro, por estradas, por corredores, por esquinas sem nome. Acontecem enquanto alguém paga a conta, enquanto outro olha pela janela, enquanto o motor ainda está ligado. São despedidas educadas, discretas, quase funcionais para o tamanho do que encerram. Não era só mais um momento. Era um adeus — só que dito baixo demais para que a gente tivesse coragem de escutar.
Existem também despedidas que acontecem nos portões, não só nos de ferro ou madeira, mas nesses lugares de fronteira onde um fica e o outro vai. Essas são especialmente doídas, quase assépticas para o tamanho do que se sente. Um último e longo olhar, um gesto que não ousa ser maior do que a cena permite. Depois, a vida segue, como se tivesse sido suficiente. Mas não foi. Nunca é. Porque ali não se disse o que precisava ser dito, ali não se foi fiel à intensidade do que se viveu. Há portões que se transformam em marcos internos.
A vocês que se foram — de perto ou para sempre —, eu digo agora o que não soube dizer quando ainda dava tempo: eu sinto falta. Sinto falta de vocês nos meus dias comuns, nas versões de mim que só existiam quando vocês estavam por perto. E me arrependo de não ter feito retumbar os tambores naquele "tchau" tímido, de não ter transformado partida em apoteose, de não ter dito com todas as letras o quanto vocês eram preciosos.
Talvez seja isso que as despedidas nos ensinam, quando ainda estamos dispostos a escutar: não é só sobre o fim. É sobre a chance — rara, preciosa — de dar forma ao que foi vivido. De dizer: “você importou”, “isso ficou em mim”, “obrigada por ter sido quem você foi na minha história”. Não para fechar tudo perfeitamente — isso é ilusão —, mas para não desprezar o que houve de verdadeiro.
Porque as pessoas não vão embora de nós quando viram a esquina. Elas ficam. E, se ficam, talvez mereçam mais do que gestos econômicos. Talvez mereçam palavras que não apagam a perda, mas iluminam o caminho que ficou para trás.
E talvez a vida, que é essa especialista em partidas, esteja o tempo todo nos oferecendo a mesma chance discreta: dizer agora o que, se não for dito, um dia vai doer por ter ficado em suspenso.
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