Qohelet

Existe um ponto no curso da existência humana em que já não se está começando, ou recomeçando, coisa alguma. 

Esse tempo é depois. Depois daquilo que se tentou, das renúncias feitas sem critério, dos caminhos utópicos trilhados em busca de algum oásis... 

Não é um tempo necessariamente dramático; é mais parecido com uma nuvem espessa que se assenta sobre nossas cabeças sem pedir licença.

Qohelet — termo hebraico traduzido no texto bíblico por “eclesiastes”, “mestre”, “pregador”, “sábio” — nomeia essa angústia com precisão: Hăḇêl. Aqui também há variação na recriação da linguagem nas versões bíblicas de língua portuguesa: “vaidade”, “ilusão”, “grande inutilidade”. 

Eu prefiro aquela que se aproxima do seu significado mais primitivo: “Nada faz sentido. [...] Nada faz o menor sentido” (Eclesiastes 1.2 – NVT).

E me pergunto: por que essa versão me atinge?

Talvez porque a palavra carrega em si outra textura: “vapor”, “sopro” — um farfalhar que, apesar de existir, não se deixa aprisionar.
E, nesse movimento, nada se fixa o suficiente, em mim, para sustentar uma narrativa de grandeza. Nada. Absolutamente. 

O mais inquietante nesse livro é que Qohelet não fala como quem ainda busca, mas como quem já foi até o fim de tudo o que poderia desejar: 

“Dediquei-me a projetos grandiosos [...]. Juntei grande quantidade de prata e ouro [...]. Tive tudo que um homem pode desejar. Tornei-me mais importante que todos os que viveram antes de mim, e nunca me faltou sabedoria. Tudo que desejei, busquei e consegui [...]. 
(Eclesiastes 2.4-10)

Mas, quando olha para trás, ele não encontra uma linha contínua que justifique o todo. São só fragmentos. Esforços. Experiências marcadas pela condição de “quase-nada”.

Essa conclusão pode ser absurdamente dolorosa, pois desfaz a expectativa de que, no fim, depois de tudo, tudo, tudo, a vida se explica. 

A conclusão a que ele chega é a de que não há qualquer coerência secreta, nem um enigma que será revelado no último instante.

Fosse quem tenha sido o Sábio nesse livro inquieto, fato é que ele não nega o Divino — mas também não transforma o sagrado em uma garantia de sentido.

E, como é difícil chegar a esse lugar em que nosso sistema de crenças já não estrutura nem organiza o caos que nos habita. Como é duro concluir que aquilo que nos forja — e firma — nem sempre elucida a razão de nossas escolhas, caminhos e descaminhos.

Pode haver quem se sinta abandonado nesse espaço-destino. Mas não parece ter sido esse o caso de Qohelet. Hăḇêl expressa, na verdade, uma náusea primitiva: a vertigem de queda no avesso da ordem. 

Qohelet não resolve a tensão que expõe a si — nem se envergonha de, como sábio, não ter encontrado “a” resposta. Ele apenas sustém a gravidade do instante. Isso talvez porque chega o dia — para os que não temem a força subjacente no entremundo — em que já não se busca mais um grande chamado ou uma síntese do “grande enigma”. 

Justificar a existência deixa de ser obrigação — se é que um dia foi. 

O que resta é um tipo de fidelidade menor, mais discreta, mas talvez mais verdadeira. 
A vida, esse fio de vento que nos mantém aqui, não precisa ser grandiosa para ser o que sempre foi: o suspiro de Ruach em nós, por nós.

E então, quase sem ênfase, Qohelet oferece um gesto mínimo: 

“O que as pessoas ganham com todo o seu árduo trabalho debaixo do sol? [...] 
Concluí que a melhor coisa a fazer é desfrutar a comida e a bebida e encontrar satisfação no trabalho. Percebi, então, que esses prazeres vêm da mão de Deus.” 
(Eclesiastes 1.3; 2.24)

Seria essa a melhor saída: comer, beber, trabalhar — não como distração, mas como modo de continuar habitando o mundo sem exigir dele aquilo que ele não pode dar?
Não performar sentido onde não há?
Não forçar uma narrativa apenas para escapar do vazio?

É exatamente aqui que me encontro com Qohelet: não no entusiasmo ou na promessa de grandes realizações, mas na sobriedade da permanência. 

Sim, quero viver a dignidade de continuar, mesmo sem garantias, sem aplausos, sem direção clara. É nesse chão — pavimentado pela paz que não se explica — que Cristo atravessa, de modo discreto e quase imperceptível, o meu cenário particular.

E, se houver alguma forma de redenção nisso, ela não virá como revelação grandiosa, mas como uma serena e discreta “certeza”: quando o grande não justifica, o pequeno permanece — e isso, por ora, tem sido suficiente.

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Talvez — e só talvez — não seja sobre encontrar “o sentido” da vida, mas sobre não me perder de mim enquanto vivo. 

Talvez — e só talvez — essa não seja uma conclusão, mas o primeiro lugar onde parei — depois de me encontrar com Qohelet.

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