Entre o ser e o fazer

E se o que me resta, e me salva, for só "ser"?

Não crescer, não conquistar, não impressionar, mas acordar em paz.
Sentir o vento batendo no corpo e saber, profundamente, que estou viva, mesmo sem grandes arroubos.

Há dias em que o "fazer" pesa como armadura. 

Então me lembro: o ser é o barro que molda todos os verbos. É o que sobra quando tudo passa. 

Ser, sem fazer, vira lago parado.
Fazer, sem ser, vira deserto.
Talvez a vida seja isso: um exercício diário de tradução entre essência e expressão.

Ser é a água.
Fazer é o curso do rio.
E o humano é a margem onde o mistério pergunta"Somos o que fazemos ou aquilo que subsiste em nós, mesmo quando nada fazemos?".

Talvez sejamos apenas esse entrelugar.

Clarice sussurra: "Eu quero é o impossível de ser."

E eu a compreendo... Porque ser é o que não se mede.

E se meu maior sonho não for realizar, mas respirar com verdade?
Ser solo fértil, não folha agitada.
Ser travesseiro, não almofada.

Então eu sou: sem pressa, sem alarde, sem plano. 

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