Às vezes tem que doer como nunca para não doer nunca mais?

Às vezes sim. Mas não do jeito que a frase costuma sugerir.

Essa ideia — “doer como nunca para não doer nunca mais” — tem algo de verdade, mas também um pequeno exagero dramático — adoramos frases definitivas. O que acontece, na prática, é um fenômeno curioso da psique. Quando evitamos uma dor profunda, ela não desaparece; ela se desloca. 

Freud chamaria isso de “retorno do recalcado”. Jung falaria da “sombra” insistindo à porta. A teologia, por outro caminho, diria que aquilo que não é confessado continua pedindo redenção. Três linguagens diferentes, apontando para o mesmo mecanismo humano: o que não é atravessado continua governando.

Então sim; existe um tipo de dor que precisa ser atravessada inteira: sem anestesia ou demasiadas racionalizações.

Quando alguém finalmente encara uma verdade — o fim de um ciclo, uma perda, uma nova identidade — acontece algo quase biológico: o cérebro reorganiza suas narrativas e a memória emocional é reconsolidada. A ciência chamaria esse movimento de “processamento emocional”; a espiritualidade, de “travessia”.

Mas aqui entra o detalhe que ninguém coloca nas frases de efeito: A DOR PROFUNDA NÃO SERVE PARA ELIMINAR TODA DOR FUTURA. Isso seria impossível. A existência vem com um pacote básico de desconfortos, ausências, frustrações e despedidas. O que essa dor faz é diferente: ela muda quem sofre. Depois de certas vivências, a pessoa não fica imune às machucaduras, mas pode ser menos orientada por elas.

É como atravessar o Saara com apenas um cantil (nossa resiliência, nossa razão, nossa fé). Quando se chega do outro lado — seja lá o que “chegar” signifique —, o deserto não terá desaparecido do mapa, mas quem o atravessou terá aprendido algo estranho: a sede não manda mais no corpo — nem na alma — do mesmo jeito. 

Não recuperamos os amores que já partiram desta vida. Não voltamos a ser exatamente quem éramos depois de um grande trauma. As injustiças que sofremos não se desfazem apenas porque acreditamos que deveriam ser reparadas. Solos áridos continuam existindo no mundo, independentemente da nossa vontade.

Existe também outro belo paradoxo na errância: as dores que mais nos desmontam costumam ser as mesmas que ampliam a nossa capacidade de enxergar o outro. Quem já foi quebrado por dentro e juntou seus próprios pedaços reconhece o estalido de algo se rompendo no coração alheio. E isso é quase bonito.

Em outras palavras: às vezes dói como nunca porque alguma parte da vida antiga está se diluindo — e mortes simbólicas são parte inevitável do crescimento humano. Nietzsche, com sua delicadeza de martelo, dizia algo próximo disso: não se trata de evitar o sofrimento, mas de transmutá-lo em “força vital”. 

A dor que destrói é a que não se permite nomear. A angústia conhecida, intitulada, passa pelo crivo da consciência e vira outra coisa — sabedoria, compaixão, lucidez.
E quando isso acontece, passa-se a caminhar com uma espécie de gravidade serena — como quem já atravessou noites longas demais, mas, ainda assim, escolhe continuar.

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