O peso de não ser escolhido em tempos de escolha infinita
Uma reflexão sobre vitrines, algoritmos e espelhos convexos
Por que, em meio a tantas possibilidades, nos sentimos cada vez mais invisíveis?
Esta é uma pergunta que tem chegado com alguma frequência à clínica — às vezes dita, às vezes apenas sentida.
Esse sentimento de invisibilidade tem se instalado no intervalo entre um match que não vira conversa e uma conversa que não encontra sustentação. Na sensação de estar ali, disponível, e, ainda assim, não ser visto.
Vi-me instigada por esses questionamentos que giram em torno do mesmo mote: a inversão de papéis que os aplicativos de relacionamento, muitas vezes, operam silenciosamente. A pessoa que buscou conexão se vê, sem perceber, numa posição de espera. O outro, que deveria ser um encontro possível, vira um avaliador.
Por que nos permitimos cair nessa armadilha?
Talvez porque a armadilha tenha a forma exata da nossa vulnerabilidade. Ela promete vencer a solidão com abundância de opções, mas entrega escassez de vínculo. Ela promete controle (eu escolho, eu deslizo, eu filtro), mas nos coloca numa posição passiva de esperar que o algoritmo, ou o outro, nos valide.
E aí vem a dor que chega ao setting — muitas vezes traduzida como: não sou digno de ser escolhido.
Em um aplicativo, o não ser escolhido não é inofensivo. Isso porque a arquitetura daqueles espaços foi desenhada para produzir gratificação imediata, mas seu subproduto é a ansiedade.
Aí, talvez, esteja o ponto que esse texto queira iluminar: o "não ser escolhido", naquele contexto, raramente diz algo sobre você. Diz sobre o cansaço do outro, sobre a dispersão do outro, sobre o fato de que o outro, naquele momento, possivelmente, nem esteja buscando o que você busca. Mas, a vitrine convida todos a fingirem que sim.
O problema é que, quando repetimos esse ritual muitas vezes, a frustração começa a virar tribunal interno. Sou invisível. Sou interessante demais para ser só mais um perfil, mas não o suficiente para ser escolhido. E a pessoa que é muita coisa começa a se medir por uma régua que nunca foi feita para medir pessoas: a régua do engajamento, da resposta rápida.
Talvez o que esses sites estejam nos mostrando, como um espelho convexo, é algo que já existia antes deles: a dificuldade de lidar com a alteridade, com o mistério do outro, com o fato de que o desejo não se controla e que rejeição dói. Mas os aplicativos amplificam essa dor porque aceleram o ciclo: conhecer, esperar, ser ignorado, repetir. Em uma semana, você vive o que antigamente se vivia em meses de flerte e desilusão.
E a grande pergunta surge: o que o não ser escolhido diz de mim, e do outro? Se a gente consegue separar essas duas coisas, já respira um pouco.
O que diz de mim? Talvez apenas que eu estava disposto a me mostrar, o que já é um ato de coragem. Talvez que meu desejo não foi correspondido naquele instante, por um critério que muitas vezes nem o outro saberia explicar. Não diz que sou indigno de amor. Diz que amor não funciona no formato de catálogo.
O que diz do outro? Diz que ele, naquele momento, não pôde ou não quis corresponder. E isso também não faz dele um vilão. Mas diz algo sobre como ele está se relacionando: se de forma presente ou distraída, se com clareza ou com fantasia.
Em que momento virei vitrine? Em que momento tratei o outro como produto? Como me sinto quando sou tratado assim?
Não se trata de demonizar as ferramentas. Elas vieram para ficar, e muita gente encontra amor de verdade ali, mas geralmente quando consegue usar o aplicativo como ponto de partida, e não como medida de valor.
A reflexão que proponho é sobre devolver à pessoa a consciência de que ela não é o perfil. O perfil é uma tradução pobre, uma miniatura, um take. A pessoa é o encontro, o contato, o tempo compartilhado.
Esse texto é um convite delicado à desaceleração.
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